olha - disse, com as mãos fortes da inocente farsa.
pois.
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segunda-feira, 20 de setembro de 2010
talvez te diga que o incêndio é o dedo dentro dessa água madura e esquiva. como se fosse um gesto. como se fosse um cérebro azulado de música assim como quem não sabe nada. e por aí fora.pois.
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sexta-feira, 9 de julho de 2010
a fenda no sexo da pele exorcisa os dentes.
o desejo é fêmea, disse a cadeira.
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segunda-feira, 28 de junho de 2010
plano dois
enquanto o silêncio se desculpa em segredos o génio nasce e desce as escadas como se não fosse nada. degustações ingénuas da fóbica aparência do meio.
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quarta-feira, 23 de junho de 2010
primeiro plano
um homem desce a escada vestido de preto e branco. nunca viu outra cor. é castanha escura a madeira. o homem diverte-se com o plano que vê a preto e branco. à mesa senta-se com a cadeira debruçada sobre esta coisa a remexer por dentro do que a gente quer. e quando se senta já é tarde para aumentar o tamanho das ruas e desenhar um fio entre a boca. branca de sangue.
segunda-feira, 3 de maio de 2010
ardo na febre de um poeta sentado à beira-rio enquanto a chuva acena ângulos azuis devorados pelas paredes. um a um, os ângulos. e a adivinhação do silêncio desgasta-se nas barbatanas de um peixe solto dois metros à frente, no mergulho da morte.
uma luz sem fundo arrasta o tempo nos orifícios do palco. sofregamente rasgo tudo. a dor mostra-me um termómetro. evidentemente, sou um peixe.
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terça-feira, 13 de abril de 2010
o cão mexe-se. traz um medo no peito num rosnar sonâmbulo. o cão é um poema em sangue. um descolar da pele quando me baixo e lhe amanso o pêlo. o cão come. o cão adormece no silêncio do sofá que não é de gente. é de cão. o cão inventa um apóstolo ao lado das omoplatas de uma fotografia.
mal pensado esse encontro. o cão nada com a pata maior a fugir do sítio.
o cão cai de costas e adormece o tempo. o cão é um segundo. o relógio parou. o cão é um relógio. o cão é um tempo. meu.
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domingo, 28 de fevereiro de 2010
1) alargo o passo depois do cigarro aceso. 2) confundo-me embrulhada de manhãs no gesto mínimo da náusea. 3) escovo os dentes como se o coração rebentasse, oco, sem sombra.
tantos contrários no peito da minha febre.
plof - isto deve ser um som de silêncio.
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domingo, 24 de janeiro de 2010
não sei se o peso tem a medida das coisas mortas mas penso que murmurar tem o sentido da cama desfeita. enquanto a vida se resume a decorações abstractas de nós próprios. altíssimos seres fascinados com o mórbido real. carpideiras dos horrores do sangue. há nos olhos o desejo do escuro abafado em azuis, farrapos de pedras no chumbo do peito.
poupo-me o oxigénio. respiro pouco.
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segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
gela-me o corpo entre o tarso e uma reles definição de sonho. a pedra levantada é agora o estrume onde renovo a minha ideia de humidade.